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A importância de se preparar para o parto

Qual foi a história mais recente que te contaram sobre o nascimento de

um bebê? Em seus sentimentos, em seu corpo, você gostaria de revivê-la?


Você acha que nessa história a mãe se sentiu respeitada, ela foi ouvida,

acolhida?


Os profissionais envolvidos ofereceram métodos de conforto, como

massagem, aromaterapia, diminuição da luz, atenção a um ambiente com

menos ruídos e falatórios adversos, música ambiente escolhida por ela?


Explicaram para ela a importância da presença de um acompanhante que

conheça bem seus desejos, necessidades e limites? Ela teve a oportunidade

de aprender sobre o trabalho das Doulas, da Enfermeira Obstetra e ter a presença de ao menos uma dessas profissionais desde quando ela estava em seu domicílio, ao longo de todo trabalho de parto ou durante a necessidade de

uma intervenção cirúrgica?



Inicio despertando essas reflexões pois infelizmente nosso cenário

obstétrico atual, em grande escala anda bastante desatualizado. Se você tem

ou teve o privilégio de ter uma equipe de parto escolhida cuidadosamente, sem

empecilhos financeiros.


Onde sabidamente os profissionais envolvidos esclarecem todas as suas dúvidas, amenizam seus medos, você é a protagonista da sua escolha, conhecendo os riscos e benefícios de cada via de parto, sua possíveis intervenções e desfechos. Onde a realização de um Plano de Parto foi somente a confirmação dos seus direitos e do seu bebê, bem como seus desejos sendo diferenciados. Sinta-se abraçada pelo universo e que esse momento possa ecoar em você a empatia e amor as demais e massacrante número de mulheres que não tiveram esse acesso e ainda lutam para parir de maneira digna e respeitosa.


Em março de 2021 a Agencia Nacional de Saúde Suplementar (ANS) divulgou que cerca de 49 milhões de brasileiros possuem um Plano de Saúde. É um número considerável e com a triste chegada do covid-19, vem aumentando cada vez mais. Mas, é importante lembrar que no mesmo período a população brasileira chegava a 212,7 milhões de habitantes segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ou seja, a maior parte da nossa população são usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) ou ainda não tem acesso a serviços de atenção à saúde integral.


Em qual dessas situações você e sua família se encontram?


O Brasil alcançou em 2018 o segundo lugar no mundo em altas taxas de

cesarianas 55%, perdendo apenas para a República Dominicana e consultando

a assistência a mulheres com plano de saúde pode chegar a 92%. Já no

sistema público de saúde as taxas chegavam a aproximadamente 48%. Onde

as recomendações dos principais órgãos reguladores da prática profissional da

assistência ao parto são de até 15%. Estamos bem distantes de números

desejáveis.


Convido você a ampliar o seu olhar para além dos números. Somos

seres humanos, mamíferos, temos nossos corpos desenvolvidos a partir da

concepção de um óvulo com um espermatozoide e por mais que estejamos

avançando biotecnologicamente, as células se dividem a partir do zigoto e se

multiplicam, se aglomeram sem intervenção externa, quase que institivamente

se desenvolvem até formar um novo ser. Seja a partir do ato sexual ou através

da fertilização in vitro. O embrião precisa do ventre feminino para ser nutrido

físico e emocionalmente.


A cada etapa da gestação nosso corpo realiza diversos processos de

adaptação em nossos sistemas circulatório, gastrintestinal, respiratório

ampliam suas capacidades, nosso coração aumenta e com a ampliação do

diafragma para dar espaço ao crescimento do útero, os órgãos mudam de

lugar. E da mesma forma, após o nascimento o corpo aos poucos se adapta a

não estar mais gerando outro ser e produzir leite materno para alimentá-lo.

Tudo isso faz parte de um processo fisiológico, instintivo, ou seja, faz parte do

que o corpo feminino é capaz, bem como fazer xixi, cocô, suar, menstruar,

digerir alimentos, sorrir, chorar, sentir prazer...


Da mesma forma, o trabalho de parto e parir são processos que o corpo

feminino é capaz, está apto a realizar. Então porque a maior parte das

gestantes e suas famílias não conseguem ou escolhem não vivenciar essa

experiência na integralidade do que somos?


Acredito que seja uma questão multifatorial. Nossas avós pariam,

nossas ancestrais pariam. Você é descendente de um ancestral parto

domiciliar.


O primeiro relato sobre um bebê retirado pela barriga de uma mãe morta

vem da Babilônia cerca de 1700 a.c, posteriormente relatos dessa prática

voltam a ocorrer na Índia em 600 a.c, com a justificativa de salvar os bebês

seja fisicamente ou espiritualmente, para que tivessem a chance de ser

batizados e enterrados longe da mãe, salvos do pecado. Ainda não se falava

sobre priorizar a vida materna. E mais próximo a nossa realidade a primeira

cesariana no Brasil em 1817 foi realizada em uma mulher negra escrava, que

pode ter sobrevivido, segundo relatos. Ou ainda para os historiadores que

colocam em dúvida esse fato, devido a avançada idade do médico que a

realizou, a primeira cesariana no Brasil também pode ser considerada em 1855

em um feto com apresentação pélvica (sentado), cujo a mãe não sobreviveu

poucos dias depois. Com o avanço dos estudos e práticas, as incisões

cirúrgicas, a anestesia, a atenção e preocupação com a diminuição da

mortalidade materna e fetal, a cesárea passa a ser um recurso inovador que

vem para proteger a vida.


Com o passar dos anos se apresentou como um procedimento melhor

controlado e seguro, porém os cursos formadores e a rotina de trabalho de

profissionais médicos, enfermeiros, priorizaram tanto o método cartesiano de

ensino que aparentemente grande parte dos profissionais e instituições de

saúde se esqueceram que o corpo humano funciona através de infinitas

conexões, física, psíquica, sentimental, espiritual, somos influenciados pelo que

nos cerca, pelo tempo, pelos cheiros, pelas palavras, pelo que vemos,

ouvimos.


Assim, seu médico com ou sem você na tomada de decisões sobre seu

corpo e estado emocional, escolhe a hora, a data, a maternidade, a equipe de

saúde, evitam feriados em família, período de férias, você pode contratar

fotografia, filmagem e buffet em diversas maternidades, onde após gestar por

aproximadamente 39 sem como o mínimo recomendado pelo Conselho Federal

de Medicina (CFM) e nem sempre cumprido. Você, imediatamente após o

nascimento, esse momento tão aguardado vê seu bebê por um minuto,

enquanto toda sua família conhece cada detalhe do rostinho dele, e você

permanece sozinha na recuperação pós- anestésica. Ou seu médico faz seu

encaminhamento para a maternidade mais próxima, quando as dores

começarem, lá você verá como é. Em ambos os acontecimentos você não

precisa se preocupar com as questões relacionadas ao nascimento do seu

bebê ou com seu corpo, pois terão profissionais para te atender e explicar

tudinho na maternidade. E aqui relembramos a maioria das histórias que

possivelmente você vem ouvido por aí.


Esta leitura é profundamente difícil e a reflexão sobre buscar novas

possibilidades também. Mas, posso afirmar ela é possível! Você pode sim ter

um parto em que você se sinta uma Deusa, isso não depende de questões

financeiras e sim organizar prioridades. Sabe aquele pensamento no início da

gestação, onde no seu íntimo você deseja tentar? Se permite sonhar?


Tudo começa quando você decide questionar e só aquela resposta

pronta ou repetida pelas pessoas do seu convívio já não bastam. Então você

inicia sua busca por informação qualificada, embasada em estudos científicos,

a busca nas mídias sociais por profissionais que tenham em seu feed fotos

recentes de partos com a presença do acompanhante, da Doula, plataformas

com conteúdo sempre atualizado, que interajam com seus seguidores. Buscar

profissionais que estejam abertos a dialogar sobre o que você deseja e não

desviem o assunto, onde seus medos sejam acolhidos e esclarecidos. Médicos

que trabalhem em parceria com obstetrizes, enfermeiras obstetras ou ainda,

você pode iniciar seu pré-natal com uma enfermeira. Mas e o parto?

O parto pode acontecer de maneira planejada no seu domicílio ou na

maternidade/ hospital, há locais em diversas cidades com Casas de Parto,

instituições públicas ou privadas. Embasada nas Diretrizes Nacionais de

Assistência ao Parto de 2017, na vivência no acompanhamento do trabalho de

parto e parto em locais públicos e privados e na vivência do nascimento do

meu filho minhas principais sugestões são:


- Inicie seu pré-natal com uma enfermeira ou médico obstetra


- Faça um Plano de Parto, a partir dele vocês terão várias dúvidas e isso

é ótimo


- Procure sobre as Doulas, provavelmente onde você mora tem alguma

Associação, elas trabalham de maneira privativa e também voluntária, participe

dos encontros em grupo proporcionado por elas


- Procure por Enfermeiras Obstetras ou Obstetrizes, conheça sobre o

trabalho delas conversando com elas e não sobre o ponto de vista de outro

profissional


- Visite pessoalmente os possíveis locais em sua região para o parto

tendo em mãos as leis do acompanhante e da Doula, procurando saber sobre

seu exercício neste local


- Amplie seu olhar para a assistência, o obstetra que te acompanhou ao

longo do pré-natal não precisa ser o mesmo que vai te acompanhar no parto.


Outros profissionais podem fazer isso, pesquise.


O parto pode e deve ser retratado como uma conquista alcançada, a

cada contração um momento superado pelo seu corpo que prepara você e seu

bebê para a vida, um evento familiar, cheio de afeto, alegria, respeito e saberes

de ambas as partes sendo valorizados, seja ele terminado de maneira natural

ou cirúrgica. O seu parto é único.



Referencias:

https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2022-05/planos-de-saude-

superam-49-milhoes-de-beneficiarios-no-pais


https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-

noticias/noticias/34438-populacao-cresce-mas-numero-de-pessoas-com-

menos-de-30-anos-cai-5-4-de-2012-a-

2021#:~:text=Esse%20percentual%20era%20de%2050,7%2C6%25%20ante%

202012.


https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/728-alta-taxa-de-cesareas-no-

brasil-e-tema-de-audiencia-publica


Partos no sistema único de saúde (SUS) brasileiro: prevalência e perfil das partutientes.

Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.7, n.2, p. 11942-11958 feb. 2021

A historia do nascimento (parte1): Cesariana. FEMINA | Setembro 2010 | vol 38 | nº 9


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