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Acompanhamento Psicológico durante a gestação: o que é e porquê toda gestante deveria fazer!

Atualizado: 30 de ago. de 2022


imagem extraída de canva.com

Por Mariana Miguel

Psicóloga da Maternidade

CRP 06\83327

@psicodegestantes


Nem sempre a mulher que está grávida, está plena e feliz. No entanto, essa mulher sente-se julgada e incompreendida pela sociedade, pois na nossa cultura, maternidade é sinônimo de felicidade e plenitude. A romantização da maternidade torna difícil falar sobre o adoecimento psicológico da mãe, pois todos dizem que “é o melhor momento da vida dela, que ela deveria estar grata, extremamente feliz e realizada”.

No entanto, inúmeras coisas podem estar acontecendo na vida dessa mulher para que ela não se sinta assim. Ao contrário do que se imagina, muitas mulheres experimentam tristeza ou ansiedade nessa fase de suas vidas.


Na vida feminina, há 3 períodos potenciais de crise: a puberdade, a menopausa e o período perinatal (gestação e pós-parto). A literatura científica indica que este último, é o período de maior prevalência de transtornos mentais na mulher, porém, a maioria não é diagnosticada e tratada adequadamente (Maldonado, 1997).


A gestação e o puerpério são períodos na vida da mulher que envolvem inúmeras alterações físicas, hormonais, psíquicas e de inserção social, as quais devem refletir diretamente em sua saúde mental. As mudanças provocadas pela vinda do bebê não se restringem apenas às variáveis psicológicas e bioquímicas, mas também envolvem fatores socioeconômicos, principalmente nas sociedades em que a mulher está inserida no mercado de trabalho, participando do orçamento familiar e cultivando interesses profissionais e sociais diversos.


Portanto, o período perinatal é um período potencial de risco e pode comprometer a saúde da mãe e consequentemente do feto e\ou bebê. Muitas estão com altos níveis de stress, ansiedade e sintomas depressivos (Schiavo, 2018). Entretanto, a maioria não se sente à vontade para falar sobre como se sente, nem muito menos procurar ajuda profissional, pois pensa que tem algo de errado com ela e que é a única que se sente assim. Portanto, ela sofre sozinha e o adoecimento mental é favorecido.


Além disso, pesquisas feitas na área da Psicologia Perinatal, indicam que mais da metade das gravidezes em nosso país não são planejadas, o que contribui para que esse bebê venha num momento da vida não tão apropriado, o que pode favorecer o adoecimento mental da mulher (Schiavo, 2018).


Ainda segundo esta mesma autora, os dados estatísticos sobre as gravidezes no Brasil apontam que:


• Mais de 50% não são planejadas;

• 35% das gestantes apresentam alta ansiedade;

• 60% das gestantes apresentam stress em algum nível;

• 25% das gestantes apresentam sintomas de depressão.


No pós-parto, segundo pesquisas, esses índices diminuem, porém continuam significativos de acordo com o esperado, o que requer atenção:


• 30% das mulheres apresentam alta ansiedade;

• 20% das mulheres apresentam sintomas de depressão;

• 49% das mulheres apresentam stress em algum nível.


Como se não bastasse, as alterações emocionais (como estresse, ansiedade e depressão), se não tratadas, podem também ocasionar prejuízos para o feto, como o nascimento prematuro, baixo peso, problemas de comportamento que podem se estender até a vida adulta.

As mulheres e a sociedade acreditam, ainda hoje, que a maternidade é instintiva, e isso leva-as a acreditar que não precisam se preparar para se tornarem mãe. Assim, a noção de instinto garante ao mesmo tempo o pressuposto de uma “natureza feminina” como “natureza materna” que seriam suficientes para dar conta de uma função social tão complexa como a maternidade. Para quê participar de um pré-natal psicológico, se quando o bebê nascer elas têm a “garantia” social e histórica de que elas estarão prontas e saberão o que fazer? Não é preciso se preocupar, nem se preparar, afinal, a maternidade estaria “dada/ pronta” e não seria construída, lapidada aos poucos, sobretudo na interação com o filho no dia a dia. Este é para nós um grande equívoco, disseminado social e historicamente, que leva muitas mulheres a se decepcionarem consigo mesmas como mães, com a maternidade. Como alerta Arrais (2005), “as várias mudanças impostas às mulheres após a maternidade têm na sua grande maioria um elemento surpresa de caráter negativo e decepcionante” (p. 120). No que diz respeito às exigências da maternidade, percebemos sentimentos de isolamento do convívio social (envolvendo lazer e trabalho) e dificuldades no autocuidado.


Infelizmente, só no puerpério, já com o filho nos braços é que se darão conta de que não “nasceram” sabendo “tudo”, que a maternidade não é “dada” e nem “cor-de-rosa” e que teria sido importante se preparar, desmistificar a maternidade e pedir ajuda.


É comum, nesse momento, a recém-mãe sentir-se totalmente inadequada e responsável por seu aparente insucesso, pois ela deveria saber ser uma boa mãe, deveria saber amamentar, dar colo, cuidar, afinal ela é uma mulher e as mulheres vêm “programadas” para isto. Como ela pode não estar sabendo cuidar de seu filho? Ou não estar vendo graça nenhuma na maternidade, ou o que é pior, não estar gostando e sentindo-se infeliz em ser mãe?


Para Maldonado (2000), a depressão pós-parto parece estar relacionada com uma grande frustração das expectativas relacionadas com a maternidade, com seu papel materno, com o bebê e com o tipo de vida que é estabelecido com a chegada da criança.


Portanto, realizar o pré-natal psicológico, complementar ao pré-natal tradicional, tem caráter psicoterapêutico e oferece apoio emocional, discute soluções para demandas que podem surgir no período gravídico-puerperal, como aquelas relacionadas aos mitos da maternidade, à sua idealização, à possibilidade da perda do feto ou bebê, à gestação de risco, à malformação fetal, ao medo do parto e da dor, aos transtornos psicossomáticos, aos transtornos depressivos e de ansiedade, às mudanças de papéis familiares e sociais, às alterações na libido, ao conflito conjugal, ao ciúme dos outros filhos, ao planejamento familiar, além de sensibilizar a gestante quanto à importância do plano de parto e do acompanhante durante o trabalho de parto e parto (Cabral e col., 2012). Essa intervenção, tem como principal objetivo oferecer uma escuta qualificada e diferenciada sobre o processo da gravidez, fornecendo assim um espaço em que a mãe possa expressar seus medos e suas ansiedades, além de favorecer a troca de experiências, descobertas e informações, com extensão à família, em especial ao cônjuge e às avós, visando à participação na gestação/puerpério e compartilhamento da parentalidade.


Para participar de um pré-natal psicológico, a gestante não precisa, necessariamente, estar atravessando dificuldades emocionais. Basta ter interesse em construir o novo papel materno ou aprimorar tal função de responsabilidade e complexidade, uma vez que a construção do vínculo mãe-bebê-pai demanda tempo e elaboração.



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