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Como se redescobrir após a maternidade?

Atualizado: 7 de out. de 2022

Matrescência. Essa palavra te lembra alguma outra palavra mais usual, mais conhecida? Isso mesmo! Adolescência! E se você tem mais de 20 anos, já passou por essa fase e já está distante dela o suficiente para saber o tamanho da barra que enfrentou.

Adolescência é a fase de transição entre a infância e a vida adulta (dos 10 aos 19 anos, de acordo com a OMS) e é marcada por um conjunto de transformações, não apenas físicas, mas também, psicológicas, familiares e sociais. Uma definição bonita para uma verdadeira crise existencial pela qual todos passamos. Crise existencial fisiológica, natural ao desenvolvimento, mas que não deixa de envolver sofrimento.


Matrescência é um termo criado pela psiquiatra Alexandra Sacks (@alexandrasacksmd), que também se refere a uma fase de transição. Aquela que a mulher experiencia quando torna-se mãe. Ela também passa por um período de crise natural ao desenvolvimento humano, assim como acontece durante a adolescência.

Porque tornar-se mãe, apesar de envolver uma série de processos fisiológicos e instintivos, também requer aprendizado. E aprender requer tempo e paciência! Não é do dia pra noite, não é de hoje pra amanhã… Haverá momentos em que você se sentirá completamente perdida e outros em que você se sentirá completamente preparada. Assim como durante a adolescência, lembra?!

O parto não traz com ele um kit de habilidades pré-fabricadas que te faz expert em conciliar a arte de ser mãe com todas as outras demandas da vida! Não é assim! Não é mágica! É processo, é fase, é transição… E como todo processo de aprendizagem, envolve dor, sofrimento, desconstrução de ideias prévias…

Considero que não há momento mais propício na vida de uma mulher para investir em autoconhecimento do que essa fase da vida. Primeiro, porque autoconhecimento é um assunto que nunca se esgota, é uma jornada que não termina nunca. A maternidade traz muitas mudanças e esse é um ótimo momento para redefinir prioridades e recalcular a rota. Além disso, a relação mãe-filho na primeira infância é tão simbiótica, que confundimos o que é necessidade pessoal, do que é necessidade da criança, do que é necessidade da família. E por último, porque com a chegada da maternidade, o tempo fica escasso e eleger prioridades se torna essencial, até mesmo para organizar a agenda. Sendo assim, será necessário se redescobrir, definindo o que não nos cabe mais da antiga vida e o que precisamos urgentemente resgatar.

E olha, tem tanta coisa que simplesmente não nos cabe mais... A queixa é generalizada:

“Depois do parto, não entro mais nas roupas do meu armário. As da gravidez ficam enormes e as de antes, parece que encolheram”.

Você já passou por isso? Às vezes, mesmo muitos meses após o parto, o problema continua. E vou ainda mais além: às vezes, mesmo quando finalmente voltamos ao peso de antes de engravidarmos, as roupas continuam não cabendo ou não ficando com o mesmo caimento de antes. Ou porque o quadril aumentou, ou porque o abdômen não está mais como antes, ou porque… sei lá… por alguma razão que não conseguimos explicar.

Precisamos considerar que saias e vestidos são apenas algumas das coisas que não nos cabem após o nascimento de um filho. Às vezes, a profissão que exercíamos com tanto prazer já não desperta mais aquele brilho no olhar. Amizades que sempre estiveram conosco podem de repente se distanciar. O restaurante preferido agora está apertado demais e mal conseguimos manobrar o carrinho do bebê ali dentro. O relacionamento a dois precisa de ajustes. A atividade física não pode mais ser a mesma. A série que tanto gostávamos perdeu a graça e o dia deveria ter mais horas, pois não cabe mais na agenda.

Por outro lado, há momentos em que queremos nossa vida de volta. E isso não significa que você não nasceu para ser mãe. Isso apenas significa que você quer se reencontrar com aquela mulher que era antes da maternidade. E esse é um processo completamente saudável, redescobrir velhos planos, velhos sonhos. Lembre-se: você escolheu ser mãe, mas não escolheu ser exclusivamente mãe, 100% do tempo. É preciso abrir espaço para outros papéis além da maternidade nas nossas vidas. Sem medo e sem culpa.


E como fazer, afinal, para definir esses aspectos? Tenho algumas sugestões para você embarcar nesse processo de descoberta de si mesma:

Pratique mindfulness: já ouviu falar em atenção plena? Os benefícios dessa técnica têm sido cada vez mais estudados e comprovados pela psicologia. Trata-se de ancorar a sua atenção no momento presente, conduzindo-a gentilmente à sua respiração, aos pontos de contato do corpo com a superfície, a um dos cinco sentidos... Enfim, cada prática foca um aspecto específico, mas o objetivo é sempre afastar os pensamentos e manter-se focada no momento presente. Assim, você vai aprendendo a identificar suas próprias sensações corporais, seus sentimentos e a dirigir o foco para o que está acontecendo no aqui e agora. Isso te permite estar atenta aos seus comportamentos, às suas preferências, o que é essencial nesse processo de redescoberta.

Escreva: seus pensamentos, suas regras, sua rotina, seus compromissos, seus sentimentos. Lembra de quando você mantinha um diário na adolescência (aí está a adolescência novamente!)? Pois bem, há uma função em escrever tudo isso e com certeza, escrever te ajudou a superar as crises da adolescência. Porquê não usar esse recurso mais uma vez a seu favor?! Escrever organiza as ideias, te levando a conclusões que você certamente não chegaria se ficasse apenas contemplando a desorganização dos pensamentos.

Troque experiências: trocar experiências com outras pessoas que estão passando ou já passaram pelas mesmas situações que você pode te ajudar e muito nesse processo. Você pode ler livros que falem sobre maternidade. Há muitas mães que se tornaram autoras maravilhosas e escrevem crônicas para compartilhar o que viveram. Você pode seguir perfis que te agreguem nas redes sociais. E, a mais importante das sugestões: converse! Converse com a mãe que está com o filho no parquinho, participe dos eventos da escolinha, converse com a vizinha que já é avó, com a colega de trabalho que também tem um bebê ou com a sua funcionaria que já tem filhos adolescentes. Todas essas mulheres podem te trazer informações importantes e novos pontos de vista. Mas atenção! O objetivo aqui não é o de se comparar com essas pessoas! Muito menos comparar as crianças! O objetivo é reunir elementos, conhecer novas possibilidades, para que você possa construir o seu maternar e a sua nova vida de forma autoral. De modo único e exclusivo!

Faça terapia: Presenteie-se com um processo terapêutico nesse momento da sua vida! Ninguém melhor que um profissional capacitado pode te ajudar nesse processo. Não é preciso estar em sofrimento intenso para procurar por ajuda. Muitas pessoas pensam que só procura terapia quem está em depressão ou tem algum quadro mais grave. E não é assim! Não precisa ser assim! Podemos procurar por um psicólogo para nos ajudar a trilhar o caminho do autoconhecimento, traçar objetivos de mudança e definir estratégias para alcançar esses objetivos. E atualmente, há uma especialidade da psicologia denominada Psicologia Perinatal, que capacita profissionais justamente a trabalhar os aspectos emocionais e comportamentais relativos à gestação, pós-parto e primeira infância do bebê. Essa é uma ferramenta poderosa de apoio a mães em sua redescoberta após a maternidade.

Enquanto pratica tudo isso, não se esqueça de apenas uma coisinha: SEJA GENTIL! Mas não se trata de uma gentileza qualquer. É preciso ser gentil consigo mesma. É preciso ser gentil com o próprio corpo no pós-parto. Dê o tempo que ele precisa para se estabelecer: seis meses, um ano, dois anos... É preciso ser gentil com a sua necessidade de descansar. Se permita dormir à tarde ou ir para a cama mais cedo. É preciso ser gentil com a sua falta de paciência. Não é todo dia que conseguiremos exercer a cartilha da criação com apego. É preciso ser gentil com as suas madrugadas. Pode ser que cama compartilhada salve algumas noites de sono. É preciso ser gentil com seu guarda roupa. Pode ser necessário comprar roupas em um tamanho maior que o de costume por um período. E está tudo bem! É preciso ser gentil com sua falta de disposição. Às vezes, pedir comida pronta ou deixar a cama desarrumada pode manter a sua sanidade mental naquele dia. É preciso ser gentil com a sua necessidade de se relacionar. Acredite, tomar um café com uma amiga pode ser completamente transformador. É preciso ser gentil com as suas escolhas. É só uma fase! Permita-se fazer escolhas que te façam bem nesse momento da sua vida. Haverá um dia em que a vida se tornará mais leve novamente e você poderá exigir mais de você. Mas enquanto esse dia não chega, exerça um pouco mais de gentileza na SUA vida!

Ao final do processo, você verá o desabrochar de um novo ser humano! Um ser humano mais cansado, talvez mais desarrumado, mas com toda certeza, um ser humano mais habilidoso, mais empático e amoroso! Uma mistura boa da mulher de antes com a mãe de agora!


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