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O bebê vai nascer?

Considerações sobre a experiência do parto e seu reflexo na parentalidade



recém nascido

De acordo com os indicadores do Sinasc¹, no ano de 2023 o Brasil registrou 2.425.597 nascimentos, sendo 40,3% de parto vaginal e 59,7% de cesariana.

Esses dados revelam que o Brasil se mantém ocupando os primeiros lugares no ranking de cesáreas no mundo. Vale ressaltar que, embora haja previsão de um plano de parto nos acompanhamentos de pré-natal, no qual incluem esclarecimentos e as medidas definidas como mais adequadas para o parto de cada gestante - levando-se em conta a avaliação médica da sua situação gestacional e clínica, associada à autonomia e escolha da parturiente, este nem sempre é observado ou se estrutura mediante a dilemas/desencorajamento/falta de apoio.


Se por um lado há muitas discussões científicas em torno do elevado número de cesáreas eletivas no país, sobretudo nos hospitais privados, em função dos riscos do procedimento cirúrgico à mãe/ao bebê e pelo alto índice estar na contramão das boas práticas obstétricas, por outro se evidencia o medo de muitas mulheres para a realização do parto normal, dada a cultura instalada no país, bem como estatísticas e relatos, não incomum, de experiências de violência obstétrica na assistência ao parto vaginal, colocando-o, muitas vezes, numa posição negativa. 


  A pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo (2010)² concluiu que uma em cada quatro mulheres havia sofrido algum tipo de violência na hora do parto. Apesar das pesquisas atuais apontarem que a assistência nacional pré e pós-natal vem tendo avanços em termos de abrangência, a qualidade se mostra aquém do esperado, sendo revelado como ainda existentes dados de falta de acesso adequado e falhas na conduta profissional nesse tipo de atendimento. Nesse sentido, também se evidenciam as desigualdades sociais e raciais no processo de acompanhamento de mulheres gestantes, como bem aponta os dados preliminares da pesquisa nacional Nascer no Brasil 2 (2023)³, que nos propõe uma reflexão mais ampla acerca de como a sociedade e as instituições reproduzem um modelo excludente, sobretudo de descriminação racial, que reflete nos espaços de saúde coletiva. 


Diante dessa realidade, nota-se que cada vez mais vem sendo difundido no país iniciativas e pesquisas voltadas à melhoria da assistência obstétrica e para a

humanização do parto, visando, assim, a ampla conscientização sobre o tipo adequado de cuidado a ser prestado no ciclo gravídico- puerperal e o necessário respeito aos direitos de todas as mulheres. 


Há alguns anos também tem se observado um incentivo maior ao protagonismo da mulher e ao parto natural, com enfoque não intervencionista e mais interessado na qualidade ética e relacional da interação profissional/paciente e, ainda que o acesso a esse tipo de assistência, normalmente encontrada em casas de parto, seja mais restrito em razão das poucas unidades no país e dos requisitos clínicos e gestacionais de risco habitual para sua admissão,  políticas públicas passaram a ser criadas e movimentos sociais a se posicionar com o objetivo de difundir práticas humanizadas durante o parto, visando, assim, a diminuição da morbimortalidade materna e infantil, o aumento do acesso a essa linha de cuidado, o controle de qualidade da assistência em saúde e campanhas de combate a qualquer tipo de violência nesse contexto. 


Entre elas podemos citar como uma retaguarda importante nesse momento de maior vulnerabilidade, a Lei do Acompanhante, lei 11.108/2005,  "que garante  às parturientes o direito à presença de acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS."4  “Garantia também aplicada aos hospitais privados – particulares ou de planos de saúde – por ordem da Agência Nacional de Saúde (RDC 36/2008).”5


Em se tratando da parentalidade, sabe-se que a experiência do pós-parto exerce influência significativa na saúde mental das mulheres, assim como no encontro inaugural entre a mãe e o seu bebê. Por isso é tão relevante o suporte da equipe de saúde à mulher nesse momento, por meio de práticas respeitosas que favoreçam a sua integridade e, consequentemente, facilitem o vínculo inicial mãe-bebê e, sempre que possível, a amamentação.


O manejo inadequado ou atos violentos durante o parto, por sua vez, além de eventualmente desencadearem questões relativas ao corpo e à sexualidade da mulher, pode provocar traumas emocionais e uma quebra na continuidade da experiência inicial da mãe com o bebê, refletindo na sua condição para interagir e se conectar ao filho recém-nascido nesse princípio.  


Como forma de reforçar a importância de uma maior sensibilidade dos profissionais de saúde na promoção da saúde mental nessas fases do ciclo vital,  temos regulamentada no país a atenção psicológica às gestantes, parturientes e puérperas, além da recente Lei 14.721, que “amplia o direito de assistência psicológica às mulheres antes, durante e após o parto por meio do Sistema Único de Saúde (SUS)”. Assegurando, ainda, que “hospitais e estabelecimentos de atenção à saúde de gestantes, públicos ou privados, desenvolvam atividades de educação, conscientização e esclarecimento sobre a saúde mental da mulher durante o período da gravidez e do puerpério”, incluindo aqui o importante momento do parto.


Assim como o propósito de mudar o jeito de nascer da fundadora Lettycia Vidal e da co-fundadora Giovana Sgréccia, deu origem a Plataforma Gestar, a qual prima pela humanização nesse contexto, a  atualização e educação permanente dos profissionais de saúde, os trabalhos de pesquisa constantemente desenvolvidos no país em conjunto com a iniciativas privadas, órgãos reguladores, legislações e políticas públicas figuram, a meu ver, como uma rede que aponta para um caminho para o desenvolvimento de profissionais e serviços mais humanizados, com a necessária qualidade técnica e adequação nos atendimentos de saúde no período perinatal almejado.


E você o que pensa sobre esse tema?


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Texto escrito por Mayara Rosa, psicóloga parceira da Gestar





Referências: 1. Painel de Monitoramento de Nascidos Vivos - Natalidade - Painéis de Monitoramento - Centrais de Conteúdos - DAENT - SVSA/MS (aids.gov.br).

2. “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado” – 2010 – Fundação Perseu Abramo e SESC.

3. BITTENCOURT, S., CAETANO, K., ESTEVES, A. P., LEAL, M.C., GRANADO, S. Dados Preliminares: Nascer no Brasil II: pesquisa nacional sobre aborto, parto e nascimento 2022-2023. Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Rio de Janeiro, 2023. Disponível em: Morbidade materna grave e Near Miss Materno.docx (fiocruz.br)

5. Cartilha: Conversando Sobre Violência Obstétrica. Defensoria Pública do Estado de São Paulo/SP. Disponível em: f60e278a-4bd2-0094-2917-e9fc0c74d310 (sp.def.br)




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