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O luto nas crianças: encontro com o desamparo

Atualizado: 6 de jul. de 2023

RESUMO Desde o início da Pandemia causada pela COVID-19, houve uma quantidade significativa de pessoas que passaram pela experiência de morte. Com as medidas sanitárias impostas, o isolamento e a ausência de rituais de despedida dos corpos adoecidos, a relação com o processo de luto precisou de novas ressignificações. Esse trabalho tem como objetivo elencar a linguagem multimodal com que a criança, diferente do adulto, pode demonstrar seu processo de elaboração do luto e como o entorno pode ser um facilitador ou não desse processo. Com base no estudo de casos clínicos atendidos durante a pandemia, e seus dados qualitativos, analisaremos como a criança em processo de constituição psíquica se utiliza de seus recursos para lidar com os desafios inerentes a perda de um dos genitores e como esse processo pode se dar em seu mundo interno e em seu entorno.

PALAVRAS-CHAVE: luto, perdas, acolhimento, desamparo

Desde o início da Pandemia causada pela COVID-19, houve uma quantidade significativa de pessoas que passaram pela experiência de separação e de morte. Com as medidas sanitárias impostas de isolamento social e a ausência de rituais de despedida dos mortos, a relação com o processo de luto precisou produzir novas ressignificações. As cerimônias passaram a ser realizadas de maneira restritivas ou reinventadas, como reuniões online, na busca de significar essa perda.


A experiência do adoecimento pelo vírus e as relações advindas desse momento foram experimentadas de maneira singular e nova. Inicialmente, a falta de conhecimento sobre este novo, ou mesmo o não saber quanto tempo ele iria durar, as representações simbólicas precisaram de ressignificações. O que não foi diferente com o processo de luto.

É a partir desse contexto pandêmico e das vivências de perda, que esse trabalho objetiva discorrer sobre o processo de luto, principalmente em torno da criança. As crianças buscam recursos discursivos multimodais para poder demonstrar seu processo de elaboração do luto, e, seu entorno pode ser um facilitador ou dificultador desse processo.

Com base no estudo de casos clínicos atendidos durante a pandemia, e seus dados qualitativos, analisaremos como essas crianças utilizam de seus recursos para lidar com os desafios inerentes a perda de um dos genitores e como esse processo pode se dar em seu mundo interno e em seu entorno.

A pergunta que perpassa por aqueles que ficam é: Como contar sobre adoecimentos? Como falar da morte a uma criança? Qual o sentido do “virar estrelinha”? É uma dificuldade do adulto de entrar em contato com o fato da perda real? E a criança, como fica seu subjetivo e seu tempo de elaboração?

Lacan (Televisão) fala-nos que dizemos sempre a verdade, complementando com “mas não toda”. Essa frase pode ser interpretada que, no contexto de morte, a cena deva ser colocada no horizonte, como feito por Mariotto (2021). No entanto, podemos fazer essa leitura de outra maneira. “Dizer a verdade, mas não toda”, mostra o quanto em situações como a morte deparamos com uma falta de palavras, falta de significantes que possam representar a situação da perda. Nesse sentido, buscamos recursos linguísticos na tentativa de suportar a situação, como as metáforas, ao dizer “tal pessoa foi para o céu! ”. E, como reagir a perda de alguém pelo qual temos laço afetivo enquanto um evento de realidade? Como é para a criança que vivencia essa situação?

Conforme citado anteriormente, a nova realidade diante do contexto pandêmico implicou em uma nova construção de relações e significações. Enquanto para alguns adultos, os trabalhos passaram a ser reconfigurados no sistema home office e os encontros ficaram restritos, as crianças e os adolescentes afastaram-se de seus pares no ambiente escolar, o que também caracteriza um processo de enlutamento, vivido singularmente pelo sujeito. Um tipo de morte de seus semelhantes, afetando a construção de si mesmos no encontro com seus outros, para além do Outro. O luto do não vivido.

Para além desse luto do convívio, houve a representação de ameaça, pela doença e pela possível perda de entes queridos. O adoecimento, o afastamento (por internação ou isolamento do ente querido), seja pela COVID-19 ou por doenças de outras naturezas, traziam consigo a restrição do acolhimento.

Assim, o Coronavírus traz consigo uma percepção de que a doença acarreta sintomas e respostas diversas, muito singulares. O adoecer é único, como notamos, e como os familiares em seu entorno respondem de forma singular.

Um evento como esse tem um valor ainda sem registro simbólico. Trata-se, para muitos países, como o Brasil, a primeira experiência de pandemia. Mesmo se houvesse tido outra, a situação também deve ser vista como única e está fora de todos os nossos registros simbólicos, faz-se um furo, fica-se no vazio de representações.

E quando o acometimento do adoecer e da morte é de genitores, muitas vivências foram de angústia, principalmente quando havia a restrição do acompanhamento durante a internação. As visitas ficaram suspensas e, após um certo tempo de convivência com o cenário do adoecimento, foi-se implementado as ligações por videochamada, na tentativa de aproximação entre os sujeitos. Com isso, algumas crianças passaram a participar mais do processo de adoecimento, no entanto, em espaço diferente e novo para elaborar suas vivências. E, uma questão que nos cabe é: “como lidar com esses momentos de angústias? Quais profissionais recorrer? E, como lidar, uma vez que se trata de um momento que todos vivenciamos, com o desconhecido? ”

O adoecimento de um ente querido, e no nosso objeto de estudo de um dos genitores, foi permeado por uma angústia mais agravada nessa época de pandemia, em alguns casos, pela restrição do acompanhamento na internação hospitalar, em visitas de duração de cinco minutos diários em UTI, em ligações de vídeo pela equipe de atendimento ou envio de vídeos pela criança a serem mostrados ao genitor em internação.

Como lidar com as crianças nesse momento de angústia? A singularidade no lidar com esse momento está presente tanto no adulto quanto na criança. Podemos até falar em crianças de todas as idades, aqueles que rememoram momentos de outras perdas, e aqueles que conhecem nesse momento a angústia do inesperado inerente a essa situação, com o acréscimo de todas as restrições presentes.

Em sessões analíticas de crianças, pudemos receber crianças e familiares em diversos momentos diferentes de vida, em que um dos genitores estava adoecido, encontrava-se em estado delicado de alguma doença ou já tinha falecido. Acompanhar esse processo junto às famílias faz com que seja necessário o acolhimento da criança e de quem o acompanha. Cada um com uma demanda para lidar com esse contexto.

Observar as diferentes demandas entre aquela que o adulto responsável traz e a demanda da criança, expressam também a diferença de como estão lidando com a situação. As sessões abrem espaço ao não dito, aquilo que se fala na presença da criança, mas não endereçado a ela em seu ambiente familiar.



Sabe-se no contexto histórico que a criança enquanto sujeito da construção e narrativa da sua própria história nem sempre teve espaço e voz para ser escutada. Os cuidados estão voltados, em algumas situações ao seu entorno, sendo os cuidadores responsáveis por comunicar os fatos à criança caberá encontrar a forma singular para expressar seus sentimentos, num ambiente que poderá estar sem espaço para essa situação.

Quando a criança experiência a ausência desse cuidador como um segredo, o “não dito” poderá ser um caminho para emergir o seu sintoma. Falar a verdade à criança, com a linguagem que a criança possa entender, parece a escolha mais assertiva. A fantasia sobre o que pode estar acontecendo ou ter acontecido pode trazer uma angústia ainda mais devastadora.

A morte é o encontro com o real no que se tem de mais absoluto. É o acontecimento do real que é incontornável, por isso, tentamos fazer borda e contornos com o rito. O rito tem função simbólica no psiquismo, produz representação do vivido, da experiência. Dá sentido ao que é da ordem do inexplicável (Mariotto 2021). Os rituais na pandemia se tornaram mais singulares, menos coletivos. A rede de apoio da família, se existia antes da pandemia, ficou mais restrita.

Essa nova experiência foi acompanhada pelas novas representações faltando mais ainda as palavras para se dar conta do evento. O desamparo do ritual fez com que cada sujeito buscasse caminhos para encontrar construir seu significante.

Ao precisarem recorrer a reuniões online, os abraços ficaram estreitos. Existem situações ainda as quais as crianças acabam sendo privadas da participação dos rituais. A permissão da despedida, quando liberada na pandemia a participação das pessoas no rito, é questionada pelos adultos e suas crenças – devemos levar a criança?

O luto é “recoberto pelo fantasma do abandono” (HOFFMAN, 2019) e nesse sentido, o sujeito deve vivenciar a perda na sua singularidade. Mas quando se diz da criança, nem sempre ela é tomada como um sujeito responsável por si.

A ruptura de um vínculo por morte traz a dor da separação, às vezes de forma repentina. O luto da experiência da perda traz uma mistura de sentimentos, provocando alterações comportamentais e cognitivas, em cada sujeito de forma singular. No luto, a criança revive algo da ordem do desamparo – vive a perda de algo de si, de alguém que faz parte da sua economia psíquica, alguém que participa das suas representações psíquicas. Quando essa vivência ocorre pela ausência de um dos seus cuidadores, uma criança pode ter um profundo desamparo e impotência.

Em sessões analíticas, existem crianças que trazem em seu discurso a morte pelo brincar de matar ou de morrer, verbalizando o medo de ficar só. Elas mostram o desamparo e as mudanças que passarão a ter nas suas rotinas.

A criança teme ficar só, o medo de novas perdas aparece na relação com os outros que ficaram, o desamparo ali que se mostra. De algum modo é relevante prover proteção e cuidado especialmente a essa criança em desamparo. As mudanças no cotidiano dessa criança são muitas vezes inevitáveis, preservar na medida do possível alguma continuidade pode ajudar no processo.

O “vazio do peito”, trazido em análise em diversas idades, mas especialmente por crianças em luto, remonta-nos a um vazio existencial que trazemos conosco.

Acompanhar a criança no luto pode ser da ordem do insuportável ao adulto. Muitos desses lutos não elaborados se mostram presentes durante a análise de adultos. Durante as entrevistas e o processo analítico das crianças, pudemos perceber os adultos revivendo suas perdas na vida, como a perda de seus próprios genitores, processos de separação, entre outros lutos, ao contarem sobre suas vidas e a nova realidade da dinâmica familiar.

Podemos pensar o desamparo como a falta de garantia da existência amparada em algo. A criança no desamparo da perda do Grande Outro, da bússola externa, e fica à deriva. Vestir a blusa da mãe que partiu, é uma forma de dizer, é o que resta, um pedaço do que se foi.

O sofrimento da perda precisa ter um lugar. Cabe ao entorno acolher as perguntas dessa criança, escutar os seus anseios, preocupações e, por vezes, garantir que aquela perda não foi ocasionada por algo que ela disse ou tenha feito.

É preciso escutar a fantasia que permeia o pensamento da criança, não foi a música que ela cantou do monstro, ou algo que ela possa ter feito, ou não ter feito, como movimento da anulação infantil, que pudesse mudar o destino da família. É a impotência que surge a todos diante dos fatos deste real incontornável. O cuidado com a criança se faz necessário para a construção de novos significados para a cena.

Para Lacan, a função significante se faz na oposição significante (só entendo o que é vida). É preciso falar da morte para entender o que é viver e construir novos valores a partir desse evento de dor. Que discursos ancoram a família? Quais redes de significantes sustentam a família? O respeito às crenças da família é importante, pois pode representar um ponto de apoio importante que sustenta “o edifício todo”.

E, por muitas vezes, as crianças deparam-se com a ausência de espaço para vivenciar a sua perda. Alguns familiares trazem as questões da criança como algo da ordem do “arrumar”, não do atravessar.

Como lidar com o bagunçar da casa e dos brinquedos, que pode mostrar algo do interno no mundo externo, e o derramar do copo de água da criança numa sessão de análise, que pode ser a representação da emoção a transbordar.

Querer estar com o genitor que partiu aparece como um desejo entre as crianças, ser e/ou estar com outros familiares já falecidos como um irmão, avós, que estariam com o genitor que partiu. A criança pode entrar em regressão, demandando do genitor sobrevivente tarefas que já fazia sozinho, transferindo o genitor que se foi para o sobrevivente, demandando cuidados do genitor sobrevivente que eram realizados pelo que morreu, foram formas que se mostraram como uma das vias de demonstrar seus sentimentos. A dificuldade em estar/se perceber só e/ou dormir sozinho, como afeta o genitor sobrevivente e a criança?

Na dinâmica familiar, atritos da família de origem do genitor falecido com o que ficou também se mostram presentes, mais acentuados no caso de casais já separados.

A circunstância em que a perda ocorreu tem seu efeito, no caso do adoecimento na época da pandemia, trazia da ordem do inesperado o que se noticiava – alguns se curam e outros partem, e assim a indignação – por que alguns sobrevivem e outros não?

Ainda no entorno da criança, tem a escola. O adulto responsável que traz na sessão analítica sobre as dificuldades da criança na escola, que demonstra algo da ordem do sofrimento e indignação, e a escola diz que “deveria obedecer responder aos comandos - e se comportar”.

O acolhimento dessas crianças e de suas perdas, seja os avós ou outros familiares, apresentou-se ao adulto uma dificuldade, encontrada em relatos como “era melhor retirar da sala o aluno que chorava do que ver o espelho da dor na criança”. O professor, ministrando na sala de aula da escola vazia uma aula síncrona, dizia “Abracem seus pais e familiares” e os alunos on-line choraram com ele. O aperto coletivo do peito transbordava.

No processo analítico, o sujeito construirá uma narrativa, analisará sua narrativa pelo evento e, então, ressignificará a relação com o mesmo. Dizer sobre algo é ressignificar e construir novas relações a partir da rede de significantes. Silenciar é abrir espaços para que faltem novas construções e o sintoma permanecerá atravessado por interdições, proibições e culpa, por exemplo.

Para Dunker (2021), a análise do luto seria, na sua forma de conceber:

“o trabalho de lembrar e falar daquela pessoa é absolutamente fundamental para que o luto vá em frente e para que, no fim, o sujeito lembre daquele que se foi com mais saudade do que dor”(p. ).

O atendimento psicanalítico possibilita o acolhimento do entorno familiar, escutando o genitor e/ou cuidador sobrevivente durante o processo de elaboração e ressignificação da criança, sempre que se mostrar necessário, assim como pode favorecer que novos laços sejam feitos, novas relações sejam construídas, enquanto aquele que partiu permanecerá internalizado, e fará sempre parte da história daquele sujeito.

Como na vivência da morte descrita no livro Vazio (Llenas, 2017), é possível preencher, mas não por completo, aquele vazio existencial de todos nós.

“É claro que somos fruto da herança de nossos ancestrais e que eles permanecem em nós mesmo que não tenhamos consciência disso. Mas o que faz nossos mortos permanecerem vivos é honrar e partilhar suas histórias. ” (Amaral e Thebas, 2022)

Dessa forma, vale ressaltar o quanto a Pandemia da COVID-19 e os diversos lutos apresentaram-se como novo em todas as formas, seja nas relações, seja nas vivências de rituais, seja na linguagem. Diante desse novo, as construções fizeram furo no Simbólico e, também, nos nossos recursos linguísticos. Viver ainda o luto, situação a qual já nos deparamos com faltas de significantes, associado com o nesse contexto pandêmico, essas ausências de significações e de palavras foram ainda mais vivenciadas com mais desamparo. A busca por significantes para aliviar essa sensação é um processo em construção, a busca de outros discursos que deve ser escutado na singularidade de cada sujeito.


 

Artigo escrito por:


Karina Damião é Psicanalista, especialista em Psicanálise com Crianças e Adolescentes: Teoria e Clínica pelo Instituto ESPE - Ensino Superior em Psicologia e Educação. Terapeuta sistêmica com formação em Educação e Constelação Sistêmica. Atua em atendimento clínico, projetos institucionais, na supervisão e docência na EPC – Escola de Psicanálise da Criança. email: karinaddf@hotmail.com

Mariana Negri é Psicanalista, membro da Formação Permanente do Instituto Langage, mestrado em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo, Diploma Universitário “Psiquismo face ao nascimento”, pela Université de Paris V. É membro administrativo da La Cause des bébés Brasil. Atua na clínica 0-5 anos do Centro de Reabilitação Piracicaba, na docência e coordenação de graduação de Psicologia na Faculdade Anhanguera de Piracicaba. email: negri.mariana@hotmail.com


 

Publicado em:



Referências Bibliográficas Simpósio organizado pela AGAPA. Morte Perinatal. 1ª edição. 2014.

AMARAL, Alexandre C; THEBAS, Cláudio. De mãos dadas: um palhaço e um psicólogo conversam sobre a coragem de viver o luto e as belezas que nascem da despedida. São Paulo: Planeta, 2022.

DUNKER, Christian. Narcisismo ressentido, o sintoma nacional que chegou ao poder. Revista Cult. Edição 269. 2021. Acesso em 05 de junho de 2022.

https://revistacult.uol.com.br/home/narcisismoressentido-o-sintoma-

nacional-que-chegou-ao-poder/?fbclid=IwAR2X5nR33fDmX5cVgb5luLAWUS

xD3AZXYka5obGn_Kqt21WlfvGioP8YCLI

FRANCO, M. H. P; MAZORRA, L. Criança e luto: vivências fantasmáticas diante da morte do genitor. Estudos de Psicologia. Campinas: 24(4) I 503-511. outubro - dezembro 2007.


FREUD, S. Luto e melancolia (1917). In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

HOFFMANN, Christian. Como se produz um psicanalista hoje? São Paulo: Instituto Langage, 2019.

LACAN, J. (1973) Televisão. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

LLENAS, Anna. Vazio. São Paulo: Moderna, 2017.

MARIOTTO, R. M. A criança diante da morte. Estante Psicanalítica, 2021. MARIOTTO & MOHR (orgs). A vivência da morte e do luto na infância e adolescência: recortes psicanalíticos. Salvador: Agalma, 2020.

NOGUERA, Renato. O que é o luto: como os mitos e as filosofias entendem a morte e a dor da perda. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2022

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